sábado, abril 29, 2006

Chave do meu corpo

A água quente inspirou-se com aquele lindo poema de Abril e agora anda lá pela Paisagem a dizer coisas impróprias para menores...



O Gato na Paisagem

segunda-feira, abril 24, 2006

O dia inicial inteiro e limpo

Lembramos a madrugada daquele dia em que a alegria explodiu em miríades de cravos vermelhos. Aquela madrugada do qual diz Sophia de Mello Breyner:

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"



Muitos dos significados do 25 de Abril têm sido discutidos e adulterados. Algo é indiscutível: foi-nos restituída a liberdade. E é sobre esse conceito de liberdade que esta canção de Sérgio Godinho versa. Certamente quase todos a conhecem. Canção datada? Talvez. Façamos hoje, por nós e como homenagem a todos os que tornaram Abril possível, uma reflexão sobre a actualidade do que Sérgio canta.






Liberdade

Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente

Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quanto não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve a vida parada
só se quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir



Tenham um bom feriado! Beijos e abraços nossos para todos.

menina graça
zé das loas

quarta-feira, abril 19, 2006

Canto de Abril o teu poema

O gato escaldado deixou lá na Paisagem um poema de Primavera, de amor, de Abril... aquele Abril que relembramos todos os anos.



O Gato na Paisagem

quarta-feira, abril 12, 2006

A fala do índio

“As vastas e abertas planícies, as belas colinas e as águas que em meandros complicados serpenteiam, não eram, aos nossos olhos, “selvagens”. Só o homem branco via a natureza selvagem, e só para ele estava a terra “infestada” de animais “selvagens” e gentes “selvagens”. Para nós ela era mansa. A terra era caritativa e sentíamo-nos rodeados pelas bênçãos do Grande Mistério. Só se tornou para nós hostil com a chegada do homem peludo do Leste, que nos oprime, a nós e às nossas famílias que tanto amamos, com injustiças insanas e brutais. Foi quando os animais da floresta se puseram em fuga, à medida que ele se aproximava, que para nós começou o “Oeste selvagem”.”(1)

Chefe Luther Standing Bear , do grupo Oglala dos Sioux


“Aprendi muitas palavras inglesas, e poderia até recitar em parte os Dez Mandamentos. Sabia como dormir numa cama, como rezar a Jesus, como pentear o cabelo, sabia comer com uma faca e um garfo e utilizar um quarto de banho… Aprendi também que uma pessoa pensa com a cabeça, em vez de o fazer com o coração.”(1)

Sun Chief, índio Hopi



[Hoje apeteceu-me meditar sobre isto. Talvez porque a Primavera já começa a trazer até mim o cheiro da terra “mansa”]

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(1) in “ A fala do índio”- Teri C. McLuhan – edições Fenda

domingo, abril 09, 2006

agua_quente

a "agua_quente" vestiu-se de Abril lá na paisagem...


http://www.gato-na-paisagem.blogspot.com/

terça-feira, abril 04, 2006

Um cidadão exemplar e a eterna espera dos comboios...

O relógio da placa de desembarque da estação do Oriente, marcava 18 horas e 07 minutos. Exactamente a hora da chegada do combóio rápido da Linha da Beira Alta. Era habitual ter que esperar, naquele horário e naquela estação, dez, quinze, vinte minutos, devidamente assinalados no painel electrónico, pelo que daquela vez estranhou a falta de informação adicional sobre o provável atraso. E o pacato cidadão, abrindo as comportas do seu optimismo impenitente, diz para os seus botões, mais a exprimir um desejo que a formular uma constatação : - “Querem ver que desta vez o combóio cumpre o horário!..”

Mal houvera tempo de intimamente acariciar tão gratificante ideia e uma voz feminina, aliás agradável e bem timbrada, solta-se dos altifalantes, ecoando no branco-cinza da tarde e da espera : - “Senhores passageiros por motivo de avaria eléctrica entre as estações x e y, o combóio que tinha a sua hora de chegada prevista a esta estação às dezoito horas e sete minutos circula com atraso”...

Repetiu duas ou três vezes, a menina dos altifalantes, na sua voz aveludada e impessoal, com o correspondente pedido de desculpas “pelo incómodo causado”, a informação debitada, sem qualquer outro esclarecimento que pudesse atenuar a angústia da espera, já que o proclamado atraso tanto poderia ser de alguns breves minutos, ou de horas ou – sabe-se lá! - ter a dimensão da eternidade...

Nos altaneiros painéis, também nada! Lá continuava, gloriosa e seca, a indicação do horário oficial : 18 horas e 07 minutos!...

Que pode um pacato cidadão fazer em semelhante emergência?!... Ou aceitar paciente o seu destino, ou contrariar a incomodidade, procurando saber o tempo disponível para o poder ocupá-lo, de forma mais agradável do que percorrer a via sacra dos “passos perdidos”, na plataforma de desembarque duma estação dos caminhos de ferro...

Aliás, “ver passar os comboios”, como os leitores bem sabem, pode provocar vertigens perigosas... E, por enquanto, o pacato cidadão não quer correr o risco de apanhar o primeiro comboio e nunca mais regressar, em desencantada imitação do “Homem Que Via Passar os Comboios”, tão brilhantemente descrito pelo escritor belga George Simenon... Eis, portanto, a razão última, por que o pacato cidadão, desceu ao piso inferior, procurando indagar de quem de direito o tempo previsível de atraso...

E, nestas coisas, há sempre que começar pelo princípio, sabido como é, de ciência certa, que ultrapassar, na cadeia do poder burocrático, um escalão, por pequeno que seja, queimar uma etapa, por irrisória que apresente, pode deitar por terra o paladino esforço de pretender, não melhor o mundo, mas tão só o modesto dever de emergir do caos...

À bilheteira, pois! - esse local mítico e (in)humano, aberto a todos os destinos e possibilidades e que, por certo Dante, não desdenharia descrever na sua descida aos infernos. Felizmente, àquela hora havia pouca afluência. Mas que não, não poderiam esclarecer, porém, metros adiante, encontraria o “Gabinete do Utente (?)”, onde ficaria devidamente informado...

Agradeceu o pacato cidadão, como o melhor dos seus sorrisos, ao funcionário que, de palito nos dentes, o atendeu e seguiu, passos à frente, conforme indicado, para o reluzente e aprumado Gabinete do Utente.

Atravessou as portas envidraçadas, num estranho mal estar de quem pressente o seu estatuto de cidadão (embora pacato) degradar-se em simples utente e, à menina emoldurada em luzidia farda, que passados minutos se perfilou à sua frente, disse das razões da sua vinda, isto é, pretendia saber qual o tempo previsível de atraso do comboio, que tinha a sua hora de chegada para ás 18 horas e 07 minutos, pois que...

Preparava-se o pacato cidadão para aduzir razões, não sei se reais se inventadas, da sua vida pessoal para tornar mais premente a necessidade de esclarecimento, mas foi abruptamente interrompido, numa voz de falsete, deslocada naquele corpinho bem apessoado :

- “Então o senhor não ouviu os altifalantes?.. Se estivesse estado atento, saberia que se verificou uma avaria no sistema eléctrico...”

- “ É justamente isso... – atalhou, num sorriso divertido, o pacato cidadão – o que pretendo saber é quanto tempo vou ter de estar à espera do almejado comboio, já que os painéis de informação não esclarecem e a sua colega do microfone nada disse sobre o assunto...”

Que não sabia a hora da chegada, nem o pacato cidadão, naquelas condições, poderia desejar conhecer, mas ela podia garantir que logo que a avaria fosse reparada os comboios entrariam de novo em circulação, preparando-se a menina com voz de falsete para debitar, mais uma vez, que a razão do atraso do comboio estava na avaria do sistema eléctrico...

- “Muito bem! – ironizou o pacato cidadão – fico confortado com a ideia de que logo que a avaria esteja reparada os comboios voltarão a circular, mas há ainda um pequeno pormenor a esclarecer : qual o tempo previsível da reparação da avaria?!...”

- “E se a menina não tem essa previsão, faça o favor de a solicitar, pois não saio daqui sem ela ... “ – acentuou firme, num sorriso felino, o pacato cidadão...

Nesta fase do diálogo, a menina da reluzente farda, virou costas, balbuciando, por entre dentes, que não estaria para aturar não se sabe bem quem e desandou para o interior das instalações.

Resumindo, que o tempo não é elástico, nem a vossa paciência infinita : saiu, então, de lá, das alfurjas do Gabinete do Utente, um engravatado e distinto cavalheiro, que em roncar de mastim mal adestrado, se propunha esclarecer de vez o assunto, repetindo, de uma vez por todas, que não podia fornecer a informação solicitada sobre a hora de chegada do comboio e que, depois disso, o pacato cidadão sairia daquele espaço, nem que fosse pela gola do casaco...

Houve então necessidade de esclarecer o simpático cavalheiro, que o pacato cidadão era de carne rija, pelo se fosse engolido, seria, necessariamente, muito indigesto;

que a empresa, com o atraso dos comboios, prestava maus serviço público, pelo que qualquer pacato cidadão tinha não só o direito, mas o dever de protestar;

que ele funcionário estava ao serviço dos passageiros e do público em geral, que não era dono daquele espaço e que tem o dever de tratar com urbanidade todos os ditos utentes, sendo certo que, no caso, o pacato cidadão apresentou com firmeza, mas com correcção, um pedido de informação razoável...

e, afivelando o nó da gravata ( que raramente usa ) o pacato cidadão, saiu calmamente, não sem antes esclarecer que a comunicação social iria ter conhecimento do incidente...

Pasmem, criaturas!... Momentos depois, gloriosamente, os painéis electrónicos anunciavam que o atraso do comboio seria de 40 minutos ... Uma vitória de pirro?!.. Nem isso: passaram, de 40 para mais 40, os minutos, antes do comboio chegar...

- “Haja Deus!... Valha-nos a eterna espera dos comboios!..., - desabafou rendido o pacato cidadão!...