quinta-feira, março 30, 2006

Cinco mandamentos de como (bem) sofrer na blogoesfera

Estive outro dia à conversa com a Luísa (ainda se lembram dela?), veio novamente à baila o blog (não fala de outra coisa, a rapariga) e às tantas ela disse-me que uma pose sofredora tinha muito sucesso nestes caminhos virtuais. Calculam que eu tive que lhe perguntar como é que se fazia isso de pose sofredora, e ela deu-me cinco mandamentos fundamentais. Aqui ficam para quem possa interessar.


1 - Mostrar que se sofre. Mas sem deixar perceber porquê. Todos irão saber, de qualquer forma. Basta que um(a) saiba.
2 - Alternar convenientemente desespero, esperança, um pouco de sensualidade. Só desespero, torna-se enfadonho. No entanto, atrai consoladores(as).
3- Manter o sofrimento por um período de tempo conveniente. Curti-lo na medida certa. Não convêm curas demasiado rápidas.
4 - Agradecer por qualquer meio o apoio de todos(as) que ajudaram a superar, etc., etc.
5 - Não “escorregar” nos comentários. Têm que estar de acordo com o estado de espírito demonstrado ou qualquer coisa vai soar a falso.

Sucesso garantido!

Pensando nisto tudo, perguntei-me como é que poderia fazer pose sofredora. E vai daí, saiu esta tentativa de poema:


Ais

A solidão de acordar angustiada
e falar de coisas banais.
A solidão das horas do dia
e dos problemas iguais.
A solidão de almoçar sozinha
com companhia demais.
A solidão das tardes suaves
plenas de sonhos (ir)reais
que se prolongam em noites
e em madrugadas precoces.
E tudo o mais.
Todos os ais.



P.S.: Quem, de facto, sofrer, mais vale socorrer-se dos amigos reais… mesmo que tenham começado por ser virtuais.

sexta-feira, março 24, 2006

A flor em ti pousada

O gato escaldado nunca deixa os créditos por mãos alheias. Então, claro que deu a resposta ao "Campo de azedas" da água quente. Ele são flores, abelhinhas, eu sei lá... Na Paisagem é mesmo primavera, apesar do tempo não ajudar...



O Gato na Paisagem

terça-feira, março 21, 2006

Um saborosíssimo pitéu (literário) ...

Há petiscos que não devem ser servidos “a frio”. O palato tem exigências, que os hábitos alimentares impõem, de forma que um sabor mais intenso, um tempero mais exótico, pode provocar espasmos de contrariedade ou até, em bocas mais delicadas e caprichosas, mal disfarçados enjoos... Claro que muito depende da dose. E, sobretudo, da sabedoria da mão de quem os serve...

Tenho para mim, que arte da escrita tem muito da arte da culinária. Aliás, como bem notam os especialistas, a cozinha, como a literatura, é uma linguagem, no seu jogo de significantes e significados...

Isto para vos dizer que o texto que se segue, extraído da colectânea “Conos”, do escritor galego Juan Manuel Prada – Edições Fenda – é, para meu gosto, um saborosíssimo pitéu literário, a que não resisto oferecer-vos... Certamente que as papilas gustativas mais generosas saberão encontrar no seu molho carregado, a textura certa do bom gosto e, no picante festivo, a alegria, que tudo subverte...

E ficarão, então, sabendo que o sexo de uma Mulher “fala” (de falo! rss) na forma como se oferece, para além do olhar que ela própria possa lançar sobre a sua intimidade...

Quem, porventura, não aguente “comidinha” mais temperada, peço-lhes: não leiam o que se segue! Ou, pelo menos, leiam, mas com a mão sobre a cara, espreitando entre os dedos, sob pena de poderem “morrer de vergonha”...

......................


A cona da coronela(1)

O coronel do meu regimento mora no quartel com a esposa, uma mulher madura, dessa madurez anterior à menopausa, tão propensa a aventuras extraconjugais e ao namorico com os furriéis. É assim que lhe chamamos, coronela, num misto de veneração e saudável zombaria. A coronela gosta de se passear pelo páteo de armas e dar gritos aos recrutas, para que saibam bem quem manda lá em casa. Com a conivência dos sargentos, dá voz de sentido às companhias e passa-lhes revista escolhendo o soldado mais apresentável. O marido finge estar à margem, mas o par de cornos já bate nos umbrais das portas, vendo-se ele obrigado a baixar-se para poder passar. A coronela exibe sempre decotes pronunciadíssimos, mostrando uma carne temperada pelo vício que os recrutas gostam de mordiscar, por ter melhor sabor e mais nutritiva do que a carne das noivas que deixaram na aldeia, noivas rasteiras e abrutalhadas sem comparação com a coronela. Ser eleito pela coronela para abrir a braguilha significa para o prestígio dum soldado, muito mais que um informe de boa conduta; ser eleito para uma relação adúltera com hipótese de ser duradoira, muito mais que uma promoção. Eu, que sou corneteiro do regimento, incluo-me nesta categoria de felizardos.

Quando o coronel se ausenta, ou vai para manobras, a coronela manda-me ir lá a casa, para lhe tocar um pouco de corneta. A coronela, mulher exigente e maliciosa, pede-me sinfonias de Beethoven (como se a corneta fosse instrumento sinfónico) sabendo bem que o meu repertório não passa de toques militares, alvoradas, faxinas, etc. A coronela recebe-me toda nua, bamboleando o cú indecente e deliciosamente assimétrico (...)

A coronela tem vocação dominadora, ademanes de déspota e temperamento brusco. Tem, além disso, um pouco de celulite nas ancas e patas de galinha nas comissuras das pálpebras, mas é precisamente nessas pequenas máculas que residem seus atractivos.

Quando fico ao alcance dela ordena: - “Pega nas medalhas do meu marido. Estão na primeira gaveta dessa mesinha.”

As medalhas e condecorações, galões e cruzes de mérito militar do marido constituem uma quinquilharia garrida, excessiva em qualquer peito, por mais amplo que seja, ( o coronel só usa umas poucas), mas não para a cona da coronela, uma cona que sai do mapa. A coronela gosta de colocar as medalhas do marido na cona e passear-se pela casa, como se transportasse um chocalho entre as coxas. A mim compete-me ir pendurando as medalhas e condecorações e galões e cruzes de mérito militar do marido na pentelheira da coronela, tomando as devidas cautelas para não lhe picar um dos lábios com algum dos alfinetes. A cona da coronela assim condecorada reluz como candeeiro enfeitado em noite de natal, enchendo de músicas metálicas a corpulência da cona. A coronela levanta-se da cama com toda aquela sucata pendurada e obriga-me a persegui-la pela divisões da casa (...). A cona dela vai deixando pelos corredores um entrechocar de medalhas soando a moedas falsas, bem como um rasto de indómita luxúria. Quando finalmente a apanho, a coronela ordena-me que a possua ali mesmo, no chão de ladrilho e eu obedeço, sem demora... Ás vezes, com a pressa, pico-me numa roseta cm que o coronel foi agraciado, na guerra de África. E então esguicha-me uma gota de sangue seminal que sobre as medalhas a cona da coronela logo alastra qual mancha de ferrugem.


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(1)- in “CONOS” – Juan Manuel Prada – edições Fenda

sexta-feira, março 17, 2006

Campo de azedas

Cá para mim, a água quente já anda a cheirar a Primavera. Ora vejam lá se não tenho razão...


O Gato na Paisagem

terça-feira, março 14, 2006

História de Marta (uma quase Lolita...)

Conheci a Marta há muito tempo, sabem? Era eu quase uma miúda que ia tratar de assuntos da família à repartição onde ela trabalhava. Na verdade, tinha começado a trabalhar ali porque o pai conhecia a mãe da prima de um funcionário de lá, sabem como é? Embora os pais fossem “classe média”, a Marta, filha única, precisava de trabalhar, já que os estudos tinham ficado para trás. Quando a vi pela primeira vez, tinha 18 anos apenas feitos e uma barriga que denunciava uma gravidez adiantada. Fui ouvindo os murmúrios das colegas que falavam de um “senhor”, aparentemente amigo da família, que tinha “abusado” dela. Aquela palavra, não a entendi na altura nem mesmo hoje a consigo ligar à Marta para quem a sexualidade parecia ser algo sem conotação moral de espécie alguma. Digamos que, nesse campo, transparecia nela sempre uma enorme indiferença, como algo que praticava sem que isso a afectasse. Talvez só mesmo a atracção que exercia nos homens a fascinasse.
Nascida a criança e passada para os braços dos avós, Marta seguiu o percurso previsto, saltitando de mão em mão entre aqueles que a má língua da repartição chamava de “cobridores oficiais” e mais alguns senhores que ninguém sabia de onde apareciam. Não me interpretem mal, não havia qualquer sentido de prostituição na sua vida. Parecendo intocada pelas sucessivas relações, dava-se provavelmente e só para dar prazer. Sem qualquer retribuição aparente, a não ser a amizade de todos os homens com quem dormia Era unanimemente considerada inteligente e dedicada ao trabalho. As colegas acabaram por gostar dela e o caso Marta deixou quase de ser falado.
Um dia apareceu em cena o Dr. Mário. Um homem complexado, introvertido. Casado, com rumores de divórcio próximo. Conquistar Marta era uma forma de se afirmar. Para ela, a oportunidade de dar um rumo à vida e, de alguma forma, ser completamente aceite no seu meio social de origem. O certo é que a relação surgiu, com apresentações à família e todos os ingredientes necessários. Nessa altura eu já falava muito com ela e apercebi-me de como era importante que aquilo desse certo. Mas, na verdade, não deu. O Dr. Mário divorciou-se mas procurou outra pessoa, mais “aceitável” para a família e para ele próprio. E acabou por se transferir para outro local, que o clima por ali estava a ficar insalubre. Talvez pela primeira vez, Marta pareceu-me realmente afectada. Afinal havia nela sonhos desconhecidos.
Mais tarde, apareceu o António. Não podia estar mais distante do Dr. Mário. Era um rapaz simplório, falava sem parar com a convicção de que tinha graça e estava a quilómetros da postura dela. Mas não a largou e a palavra casamento surgiu. Ninguém acreditou que aquilo resultasse. Espantosamente, resultou e apareceram três filhos, em poucos anos. Ninguém nunca mais ouviu falar de qualquer aventura em que ela estivesse envolvida.

Encontrei a Marta, há poucos dias. Tive dificuldade em reconhecer naquela mulher sem graça, mal vestida, descuidada, a rapariga que me fascinava quando era adolescente. Falou-me dos filhos, do que faziam, do que trabalhava para equilibrar a casa. Perguntei-lhe pelo António. Que estava bem, continuava no mesmo sítio e era um bom pai para as crianças. Tinha sido tudo pelo melhor, disse.

-Sabe, eu estou velha e estragada, mas que se há-de fazer? Ainda tive sorte, no meio disto tudo. É preciso ter paciência, é preciso ter paciência…

Fiquei a pensar na Marta até hoje. E pergunto-vos, porque eu própria não consigo ajuizar, se esta é uma história com um final feliz.

quinta-feira, março 09, 2006

A arte de um bom talhante...

– “Ah, disse-lhe Príncipe When-Houei - como pode tua arte atingir tal grau?!...”

O talhante pousou a faca e disse-lhe:

_ “ Amo Tao e assim tenho progredido na minha arte! No começo da minha carreira só via o boi. Após muitos anos de exercício, deixei de ver o boi. Agora é o meu espírito que opera em vez dos meus olhos. (...) Conheço a configuração natural do boi e dirijo a minha faca para os interstícios. Não danifica as artérias, as veias, os músculos e os nervos, muito menos os ossos grandes. Um bom talhante usa uma faca por ano e apenas corta carne. Um talhante vulgar usa uma faca por mês, porque a crava nos ossos. Sirvo-me da mesma faca há dezanove anos. Despedaçou vários milhares de bois e o seu gume parece sempre acabado de afiar... Para dizer a verdade, as articulações dos ossos contêm interstícios e o gume da faca não tem espessura. Aquele que sabe deslizar o gume de forma muito subtil nesses interstícios, maneja com desenvoltura porque opera nos espaços vazios. É por essa razão que me servi dezanove anos da minha faca e o seu gume parece sempre acabado de afiar. Cada vez que é necessário partir as articulações dos ossos, concentro-me nas dificuldades específicas a resolver e sustenho, fixo o olhar e opero lentamente. Manuseio muito suavemente a minha faca e as articulações separam-se tão suavemente como a terra tomba no solo. Retiro a faca e ergo-me. Olho em volta e entretenho-me; limpo a faca e volto a colocá-la no estojo...”(1)


Assim falou o talhante ao seu príncipe neste dia e ano de graça nove de março de dois mil e seis, neste País de faz de conta...


Post scriptum: por favor, meus amigos(as) não fixem o dedo, olhem para a Lua...


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(1) - In “Receitas Literárias” – edição “1001 noites” – Eduardo Barros

terça-feira, março 07, 2006

Aniversário da Paisagem

Hoje, o gato escaldado e a água quente celebram o primeiro aniversário do blog lá naquela tal paisagem...
Um ano na blogoesfera já é sinal de idade adulta. Por isso, acho que merecem(os) parabéns.


O Gato na Paisagem