segunda-feira, janeiro 30, 2006

Uma história perversa

Gosto de histórias perversas. Ou se quiserem das histórias sublimes, arrancadas ao luto da história, ou decifradas nas regiões ocultas do coração humano, malditas tantas vezes, sofridas como gestos luminosos, sublimando o tempo futuro... E, nelas, a Mulher! Exorcista do amor e transgressora da “norma” e dos “poderes” masculinos... Mais que não seja, pela morte redentora....

Ora, escutem “ La Lai d´ Ignaure”, a história da vida e da morte de um cavaleiro medieval e de seus amores...


“Ignaure vive no castelo de Riol e apaixona-se por doze senhoras casadas que também aí moravam, com seus maridos. Amor correspondido por todas elas, em segredo. Certo dia, as damas resolveram jogar a um jogo e escolheram uma, entre as dozes, para fazer de padre a quem as restantes confessarão o nome do amante secreto. Uma após outra, pronunciaram o nome do seu amado e todas nomeiam Ignaure. Descoberta a identidade do único amante secreto, as damas da corte decidem vingar seu amor e preparam uma armadilha para Ignaure. Todas concordam em participar no que se adivinha vir a ser uma vingança cruel e sangrenta. Por fim chega o dia em que Ignaure cai na armadilha e é cercado por doze mulheres em fúria, empunhando facas afiadas. Porém graças ao seu belo porte e à sua inteligência, Ignaure consegue escapar da morte. Primeiro, confessa amar de igual modo cada uma das doze damas e depois aceita escolher apenas uma delas. Ignaure escolhe a que fez de padre, a mesma a propor o desfecho para o dilema.

Pouco tempo depois, um espião do castelão descobre o segredo de Ignaure e conta a história aos maridos que, por seu turno, decidem levar a cabo a sus própria vingança. Um dia surpreendem Ignaure com a dama que escolhera e prendem-no numa cela do castelo. Após deliberação entre eles, os maridos decidem cozinhar e servir às esposas o coração e o pénis de Ignaure. Ao saberem do trágico destino de Ignaure, as mulheres, na sua dor, recusaram-se a comer daí em diante e acabaram por morrer, balbuciando o doce nome de Ignaure ”.(1)



Cuidado, minhas amigas, não deixem nunca os vossos queridos maridos (ou namorados) atreverem-se na cozinha... Nunca saberão o que poderão comer... Ou então se a vossa consciência estiver muito pesada, terão sempre a redenção do “Corpus Christi” ...

Boa semana! Espero que se divirtam…

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(1) - in “História Perversa do Coração Humano “ Milad Doueihi – Ed. Terramar

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Terra paisagem

Foi o nome que o Gato deu ao poema que deixou como resposta à água_quente, lá na paisagem. Fomos lá ver. O negócio hoje pára um bocadinho.



O Gato na Paisagem

terça-feira, janeiro 24, 2006

A saúde da Dona Rosa

Bom, vamos lá abrir a loja que isto de andar a passear não enche a barriga a ninguém. Ou talvez encha, o nosso piquenique estava a correr bem mas foi assim cortado de uma forma um bocado brusca. Se querem que lhes diga, a mim ficou a saber-me a pouco… faltou-me só, só um bocadinho para ser um piquenique perfeito. O Zé anda por aí a dizer que faltou “Um pouco mais de azul” (este homem com a mania de citar os poetas..) e eu acho que faltou foi um pouco mais de vermelho. Enfim… problemas de cores, não é por isso que nos vamos desentender.
Por falar em cores (ou em flores?) quem me apareceu por aqui com um ar absolutamente desmaiado foi a vizinha Rosa. E eu até pensei que, coitada, tivesse ficado com alguma indigestão porque ela também foi ao piquenique. Comecei logo a dizer-lhe que não devia comer tanto, que só lhe fazia mal e essas coisas assim que devemos dizer às pessoa para as animar, não é? Mas ela respondeu-me que tinha até comido muito pouco mas tinha havido qualquer coisa que lhe tinha caído mal. Claro que fiquei preocupada, convencida de que alguma coisa na minha comida estava estragada. A minha fama de cozinheira não podia ir assim por água abaixo… Ela estava com dificuldade em dizer-me o que é que se tinha passado e eu também, como sou uma rapariga discreta, não insisti muito. Pôs-se para aí a dizer que tudo tinha corrido muito bem e que estava pronta para todos os piqueniques que fizermos cá no bairro e acabou por se ir embora.
O senhor António que mora ali ao cimo da rua é que passou aqui há bocado, ainda eu tinha a loja fechada, e disse-me assim mesmo:

-Menina Graça, então viu aquele disparate da Dona Rosa que, lá no piquenique, encontrou um sapo e pensou que o conseguia apanhar? Não sei como, o diabo do animal saltou-lhe para a boca e ela engoliu-o. Por isso é que ela estava tão mal…

Um sapo? Vejam lá bem isto… E ainda me disse o senhor António que o sapo tinha ar de poeta. A mim parece-me que ele anda a ver muitos filmes… Mas, sabem, não me preocupo muito com o estado de saúde da Dona Rosa, sei que ela anda muito entusiasmada com o novo inquilino de uma casa onde ela vai, de vez em quando, fazer uns biscates, ali para Belém. Ainda sai dali um casamento perfeito, ai sai, sai…

domingo, janeiro 22, 2006

Fomos fazer um piquenique

Hoje é um dia diferente. Resolvemos ir fazer um piquenique àquela paisagem onde se passeia um gato. De vez em quando, gostamos de ir até lá. E não é que encontrámos um presente deixado pela água quente?
Convidamos todos a juntarem-se a nós lá e gozarem a beleza da natureza. Mas, primeiro, toca a votar, todos! E bem, já agora….:)


O Gato na Paisagem

quarta-feira, janeiro 18, 2006

A volta do Zé

Menina Graça:

A sua Retrosaria está um sucesso. Mas ele há coisas que um olhar atento não pode deixar de notar. Pequenos pormenores. Um quase nada, que pode ser determinante. O bairro está a ficar “modernaço”, ambos sabemos. Nem eu sou bota-de-elástico, ora essa! Até vou votar no candidato que me recomendou. O tal poeta que a menina tanto gosta. Mas olhe que o bairro não mudou tanto assim, não! A mesma “choldra” de sempre. Tendo em conta a minha estima por si, peço-lhe que não se meta em complicações e, sobretudo, que se afaste de simplificações... Mais: até lhe digo que “negócio” mesmo seria na Rua dos Fanqueiros, a coleccionar manequins... sem graça!

Mas prontessss... Como a menina merece e para não julgar que estou zangado com a provocação do seu último texto aqui fica um poeminha que lhe dedico com muito afecto:


A menina Graça
Anda tão atarefada
Com sua clientela
Que a Retrosaria
- que ela quis tão bela! –
Com tanta freguesia
Receio que algum dia
Venha ser supermercado...

Que ele há coisas do Diabo
Até uma marafada
Se ergue por aí em fervura
A mandar palpites no avio
E a falar com desenvoltura
De cuidados maternais
Como – sei lá! - as loas do Zé
Fossem artigos de saldo
E não da Graça seus ais
Ou discreto atavio
A atiçar seus calores
Coisa que eu dou logo fé...

Pois que nisto de amores
Sou mais que gato bufão
A imaginar a Retrosaria
Com zinco em telhado rente
E a menina Graça perdida
Como gata na sua mão
Ardendo em água quente...

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Complicações e simplificações

Bem, a loja hoje está composta! Está visto que o pessoal cá do bairro estava mesmo a precisar de uma retrosaria… para pôr a conversa em dia. Vejam lá… até rimei. Eu que nunca tive jeito para poesia… Admiro muito quem tem e já deu para ver que há por aqui gente que trata muito bem as palavras. Valha-nos isso, valha-nos isso, que hoje as crianças saem da escola a dar cada pontapé na gramática!

Estou a afastar-me do meu assunto de hoje. Eu sou assim, começo a falar e umas conversas levam a outras… Deixemos isso. Hoje queria mesmo é falar duma coisa que há muito tempo me faz confusão. E espero que os senhores que aqui vêem não se ofendam e que as senhoras me ajudem a compreender.

Primeiro, dirijo-me às senhoras: não vos acontece, por vezes, ficarem desgostosas ou preocupadas por um qualquer problema e quando querem partilhá-lo com o vosso esposo, namorado, sei lá o quê…, receberem esta deliciosa resposta: “Para que é que estás a dar tanta importância a isso? Lá estás tu a complicar!”?
Espero que isto não aconteça só comigo. É que, cada vez que me dizem isto, eu complico dez vezes mais. Aí sim, faço o possível por “complicar” mesmo e acabar em discussão. Pois é, eu não tenho lá muito bom feitio…

Mas observemos o reverso da medalha (ou será que é a mesma face?). A “simplificação” dos homens. Talvez a palavra não seja a mais exacta mas é a que me apetece usar neste contexto. Minhas senhoras, por vezes acontece estarmos tristes, ansiosas, angustiadas por problemas de todos os dias que se acumulam e que, às tantas, transbordam. É ou não é verdade? Se calhar, precisamos de falar de tudo e de nada, de alguma compreensão e muita ternura. Uma receita infalível. Mas eles sabem disso, que me parece tão óbvio? Não, na maior parte dos casos (honra seja feita às excepções!). A interpretação do nosso estado de espírito é, quase sempre: “Ela está com falta de cama.” (não, não é para dormir, é para o sexo, puro e duro). Estão a rir-se? Pensem lá bem. É que a essa interpretação segue-se, para eles, uma dúvida: “Será que eu tenho cumprido com os meus “deveres”?” E então tentam cumprir, provavelmente na pior altura, segundo o nosso timing.

Pois, meus queridos clientes aqui desta loja, eu generalizei. Claro. E agora gostava de ouvir as vossas opiniões. Porque, muitas vezes, as “complicações” das mulheres e as “simplificações” dos homens dão origem a desentendimentos desnecessários. Afinal, nem as mulheres complicam tudo, nem todos os problemas se resolvem na cama… Ou não será?

A propósito (ou não...) viram por aí o Sr. Zé? Aquele homem anda sumido e, sinceramente, quando o vir, não sei se complique ou se simplifique...

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Felicidade a metro?

Como vai a vossa vida? Bem, mal, assim, assim? Amigos, não se acanhem, não vos quero confessar. Não vos vou fazer perguntas indiscretas que isto aqui é uma retrosaria e não uma igreja e eu nunca tive jeito para freira quanto mais para padre…
Só vos queria perguntar se vivem felizes. E, se calhar, esta é a mais indiscreta das perguntas. Sabem que tenho um amigo (não, não é o Zé…) que me pergunta sempre o mesmo: “E então, vives feliz? Vives com gosto?” A minha resposta também é sempre a mesma: “Vou fazendo por isso”. Mas fazemos mesmo por isso? Nem sempre, não é?

Sabem, eu acho que dava muito jeito haver umas lojas que vendessem essa coisa da “felicidade”. Assim aqui, por exemplo, vendíamos felicidade a metro. Aí, garanto-vos, era um artigo que eu punha sempre em promoção. Na verdade, não seria boa prática comercial porque era, de certeza, aquele que tinha mais saída.
Mas já imaginaram? Um desgosto de amor precisaria de 2 metros de felicidade (ah sim, que esses dão-nos cabo da alma), uma doença de 1,5 m (para ajudar a curar, que a felicidade é um tónico), desânimos, desalentos, desilusões diárias iam lá com 0,5-1 m. (conforme a intensidade). E tínhamos a nossa dose até à próxima recaída. Caramba, que grande negócio! Mais rentável, só essas porcarias das drogas que andam por aí a vender no bairro. Mas, na verdade, não será a felicidade uma droga? A melhor de todas?

Não se vende, mas olhem que esta teoria das doses, quando bem aplicada, até resulta. Temos é que ir armazenando doses pequenas para quando precisarmos de uma “overdose”! Dessas que não matam, antes nos fazem reviver.

E agora, meus senhores e minhas senhoras, a conversa acabou, por hoje. Vamos lá a ver quem é que está aqui para comprar alguma coisa, que isto não pode ser só dar à língua!

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Tinha que lhe dizer...

Parabéns, menina Graça. Um must a sua “Retrosaria”. É um privilégio, nestes tempos de “choques tecnológicos” e outras frias parlapatices, poder desfrutar o ambiente de simpatia e bom gosto que soube criar. Um certo cosmopolitismo discreto perfumado das melhores tradições lusas. Uma mistura irresistível de Chanel nº5 e água de alfazema. Muito chic, sem dúvida...

Claro que serei assíduo frequentador. Não tanto para a menina me coser as peúgas. Ou consertar o meu desleixo, como gentilmente se propõe. Mas pelo puro prazer da sua companhia. Sabe como eu gosto de vê-la cirandar pela loja, alcançar um ai ou desabafo seu sobre a carestia da vida e o mal dos negócios, segurar o escadote enquanto a menina alcança alguma prateleira mais distante, saborear o seu tornozelo ou (quando deus quer e a menina não se importa) subir meus dedos à altura das suas coxas morenas e bem torneadas...

Gosto, pois, desses momentos ao fim de tarde, saboreando o cálice de licor com que me obsequeia, entre dois dedos de conversa e o tricot das novidades do bairro. Mas, em verdade, a maior glória é quando a menina, atacada de “afrontamentos”, me pede para lhe levar os “sais” a seu escritório, lá nos fundos. E exige a porta de entrada fechada, com o dístico “volto já”...

Então sim, a retrosaria se ilumina de toda a sua graça!...

Acredito, pois, que a sua loja vai ser um enorme sucesso, a adivinhar pelos muitos clientes destes primeiros dias. É muito gratificante para mim (e seguramente para a menina) ver de novo aqui rostos conhecidos de outras paisagens, que aproveito para saudar e agradecer a solicitude e simpatia...

Peço-lhe desculpa, menina Graça, da pouca atenção que lhe dediquei nestes dias de azáfama da instalação. Mas como muito bem sabe, entre as minhas múltiplas qualidades que a menina explora, sou mais de cultivar umas loas... do que de arrumador de prateleiras!...

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Bom dia!

Bom dia, bom dia! Desculpem a loja ainda estar um pouco desarrumada. Mudei para aqui há pouco tempo. Isto é assim uma aventura em que resolvi meter-me, ainda por cima neste tempo em que o negócio anda tão mau. Vamos lá ver como me saio. Espero que venhamos a dar-nos bem, afinal vivemos todos aqui no bairro. Acabamos por saber tudo uns dos outros, não é? Eu moro aqui há tanto tempo que já conheço muita gente. Espero que apareçam sempre, nem que seja só para conversarmos. Eu sei que este negócio é uma coisa que já nem se usa. Mas linhas e botões sempre são precisos. Há tanta coisa a precisar de remendo…

(D. Esperança pode ir vendo aí essas amostras de botões para ver se gosta de alguns!)

Hoje está uma bonita manhã, não está? Por acaso acordei muito bem disposta. Só de pensar que vinha abrir a loja… O Sr. Zé apareceu a bater-me à porta logo de manhã, para me ajudar a trazer umas coisas para aqui. Quando aqui chegámos, ainda nem eram horas de abrir. Ficámos à conversa. Pronto, olhem, o dia começou bem.

(Sr. Zé, ainda aí está? Ora, não me diga que quer levar umas linhas para coser aí essa manga que está a precisar de arranjo… Eu até talvez lhe possa tratar disso…)

Eu digo-lhes, minhas senhoras, este homem é uma pérola. Vêem por aqui homens, nesta loja? Claro que os homens não cosem nem bordam (a maioria, pelo menos). Mas ele tem um interesse pelos meus botões… eu pasmo!

Vamos ter muito tempo para conversar. Isto quando se começa a puxar assunto, nunca mais acaba. E eu gosto de falar de tudo. O Zé (desculpem, o Sr Zé), também. Por isso, vão aparecendo. Pode ser que fiquem clientes.
Por hoje, tenho que começar mesmo a trabalhar. Vamos lá ver então: Quem está primeiro para ser atendida? Sr. Zé, deixe-se ficar, ou então volte mais logo, está bem?