“A esposa de meu amigo Zeca exige-lhe, antes da prestação conjugal, que lhe mordisque a “passarinha”, ou seja, que lhe mordisque ao de leve o velo púbico fazendo o ruído das cavalgaduras ao morderem o pasto. Há nesta exigência um fundo de maldade, um desejo de retardar a fornicação pouco abonatório da esposa. Mas o Zeca sempre acatou os caprichos da dominadora e, agora, todas as tardes o vemos nos subúrbios da cidade a passear pelos prados comunais, onde vacas (agora povoando Lisboa) cavalos e mulas mordiscam a erva (...).
O Zeca, conforme me confiou em diversas ocasiões debatia-se com dois problemas – digamos – fisiológicos : em primeiro lugar, ele não tinha beiças de cavalgadura, capazes de abarcar um palmo de erva e, por conseguinte, um monte de Vénus, por muito espesso que fosse; além disso, o velo púbico feminino é de uma consistência muito diferente da erva, dificultando sobremaneira esse ruído tão peculiar, misto de estalido e pancada amortecida, que fazem as bestas ao mordiscar.
Perante tamanhos inconvenientes, o Zeca tentou limar os incisivos, enrolar a língua em estopa e até franzir os lábios em alicate, mas nunca conseguiu reproduzir o ruído em questão. Resultado, a mulher - essa grande safada - continuou a negar-lhe seus favores. Com tudo isto, devo confessar que a esposa do Zeca, embora caprichosa e cheia de melindres, é uma mulher em todos os aspectos uma esplêndida mulher, um autêntico bombom recheado sabe-se lá de que deliciosos ingredientes e bem merece que lhe mordisquem a “passarinha”. Era certamente o que achava o Zeca, passando as tardes a contemplar as evoluções de muitos quadrúpedes que não paravam de pastar (...). Tal foi a obstinação no estudo desses herbívoros e tão decepcionantes as suas tentativas de reproduzir o mordisco na “passarinha” da esposa, que esta decidiu requerer a anulação do casamento, baseada no não cumprimento dos deveres conjugais.
O meu amigo Zeca, que continua a frequentar as pastagens, está a ficar com cara alongada de tristeza, atingido até proporções equinas, e olhar dele, longo e arrastado, possui agora a definitiva nostalgia do cavalo que perdeu uma corrida no hipódromo.
Dizem as más línguas que a esposa, enquanto decorrem os trâmites jurídicos da anulação do casamento, travou relações com um jovem Lord inglês, de seu nome Michael Horse, membro efectivo do “Internacional Jockey Club”.
Que espertalhona! ....”
( Juan Manuel de Prada – in “Conos” – Ed. Fenda )
Bom fim de semana.
Divirtam-se, apreciando as vaquinhas a “pastar” por essa Lisboa...